segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobremesa confeccionada pelo cheff Ripp ( Imagem concedida)



Uma comida sensual...

Precisa ter gosto de expectativa
Precisa ter olhares anteriores
e perfumes de eternidade

Precisa do cuidado ao lidar
do cuidado ao ambiente, ao som, a luz

E depois...
na apresentação...

Precisa de olhos nos olhos, de salivação...

Uma comida sensual
começa a umedecer o olhar...
depois a boca...

e pór fim, o coração.



Márcia Poesia de Sá

domingo, 7 de novembro de 2010


Penetrando-me


Do que será que fala este olhar?

E que palavras escuto sem ouvir...

Porque será que senti o chão tremer

E a pele arrepiar?

Por onde será que vaga teus pensamentos

E por onde eles me levaram...

Só sei que despenquei vertiginosamente de minhas frágeis certezas

Apenas ao observar este olhar

Parece faca afiada, a penetrar minhas verdades

A mostrar-me precipícios

E mesmo assim, tal qual ima

Arrasta-me...

E indefesa, sigo

Hipnoticamente em busca de ti

Como um faminto

Em busca da saciedade

Do que fala este teu olhar?

Imploro... Responde-me.


Márcia Poesia de Sá


Os cheirinhos de nossa memória

Era finalzinho da tarde e o sol já pintava de laranja o antigo azul, sentada na colida com um vestido branco, a menina riscava no chão arenoso, círculos infindáveis enquanto seus pensamentos rodopiavam juntos a seus aros...
Da mata tranqüila um perfume de água, terra molhada pela chuva fina que a pouco caira, inundava seus pulmões e num suspiro profundo, ela se levanta devagar, ela lembra-se de quantos e quantos anos brincava por ali quando criança, de como pareciam gigantes as arvores que hoje lhe são como amigas eternas, a dois passos de onde estava pega no chão uma florzinha de mato, era uma orquídea mine, de cor roxa, a menina a observa bem de perto, no pistilo central uma cor amarela contrastava... Como contrastava seus sentimentos e pensamentos com suas atitudes. Ao se aproximar da casa grande escuta um som encantador a senhora Anastácia, que cantarolava mais uma linda canção e o perfume de torta de morangos denunciava que a tarde tinha sido doce para ela... Pé ante pé ela sobe as escadarias... E no meio da cozinha deitado no solo friozinho, o gato Zeus dormia de barriga para cima... Ela entra, corre para servir-se de torta... Que ainda morninha, ficava ainda mais gostosa... Ao fechar os olhos, ela volta uns dez anos... E se vê pequenina, sendo ninada pela mãe... Era comecinho da noite e a menina e seu vestido branco, sumiram na mata... Mais uma vez... Ela retorna então a sua realidade. Ser um espectro perdido entre o real e o imaginário. Entre o ontem e o hoje... ela sempre volta a sua antiga casa, quando os aromas ou a saudade a despertam... E lá na cozinha Dona Anastácia comenta... Ah! Que pena que Camilla não está mais aqui, seja lá onde estiver querida saiba que fiz esta torta para você.

Márcia Poesia de Sá

sexta-feira, 29 de outubro de 2010




Em mim

Eu queria me entender, abaixo da plácida água de meus pensamentos. Queria escutar melhor meus silêncios... E navegar neles como barco sem vela, a deriva de mim... Despencar em todas as cachoeiras de sentires e ver meu sol nem que fosse de longe, nascer a cada manhã.

Eu queria entrar em meu próprio corpo e passar a mão em minhas artérias, ver meu coração bem de pertinho, escutar o som que ele faz em determinados momentos... Quem sabe até assistir ao grande acontecimento. A pausa... O fim.

Eu queria reler as histórias que minha pele guarda a sete chaves de mim mesma, escancarar meus segredos guardados lá dentro daquele livrinho estranho, chamado subconsciente... Poucas vezes eu o vejo passar nas mãos dos sustos e dos déjà- vus...

Eu queria saber das coisas que jamais disse e porque não disse? Porque fiz questão de guardar algumas dores tão bem guardadas que as perdi... Hoje não sei onde elas estão, mas sei que existem.

...ah! Eu queria ler minhas não escritas, entrelinhas...

Ter a chance de me ver por dentro, o mais dentro que eu pudesse chegar, e ser tão profunda em mim, que acabasse por perder o caminho de volta.

Por onde será o caminho da entrada, que me levará ao âmago do meu vazio?

Ou aos lagos onde tão repleta, me banharia de mim, do mais cristalino eu que já vi...

Eu preciso me entender, para me desentender com minhas interrogações infindáveis e quem sabe assim, eu consiga me responder... Neste infinito questionário de duvidas, onde adormece a pena cuja tinta é feita de sangue.


Márcia Poesia de Sá

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Quem me dera

Ah! Quem me dera
Ser uma nuvem passageira
Ter dias abarrotada de chuvas
E dias de puro ar...
Ter teus olhos me seguindo no céu
E teu desejo de em mim
Flutuar...
Ah! Quem me dera andar pertinho de ti
Estrela encantada a cantar...
Vejo-me nuvem
Em cada raiar do dia
Mas desapareço quando a lua vem
Ah! Quem me dera
Ser só a imagem branca
Que com tantos brancos se pinta...
Queria ser a chuva a me desfazer no céu
Entranhando teus pulmões de cheiro de água...
Ah quem me dera...

Quem me dera...

Márcia Poesia de Sá

Memórias da rosa

Ainda posso sentir teu cheiro
E por mais que eu me banhe de dias novos

Aqueles dias não me saem da pele...
Replantei as margaridas
E tantas idas e vindas...

Mas no jardim floriu outras flores
Sinto tua presença na sua ausência
E aquele sorriso lindo
Ecoa firme e infindo dentro de minha saudade

Ah! A saudade das pétalas
Que deve sim! Sentir a Rosa
Quando é abandonada por elas a secar...

Do trono do caule
Ela apenas as observa voar
E chora, sei que chora!

Como choro eu...
Ao não te ver voltar.

Márcia Poesia de Sá

terça-feira, 26 de outubro de 2010


Galho D’água



Vejo-te como galho d’água

Exposto e vitrificado em minha memória

Nos teus galhos já não há mais frutos

E as folhas em cristais translúcidos

Despencam de ti, como antes, fizeram meus sonhos...

Vejo-te como tronco retorcido

E na pele do antigo toque, arrepio

Não mais de prazer, mas de frio!

Na gélida sensação de silêncio e vazio

Onde o vento já não derrete nada mais...

Vejo-te assim, como foto de postal

Intacto fractal de vidro

Insano, insensível, irreal.

Teatral passado esquecido

E dos frutos já apodrecidos

No solo que antes, era tão florido

Nenhuma semente jamais brotará

Vejo-te como galho d’água...

Eternamente congelado por este meu olhar.


Márcia Poesia de Sá