terça-feira, 10 de novembro de 2015

Dos relógios que se reproduziram nas gavetas empoeiradas
nada tenho a dizer, sou como o silêncio deles
esqueci as horas
entre aquele jantar e um café da manhã
que nem tomei.
E nem sei dos bolsos vazios do antigo terno
nem daquelas botas descoladas
de tantos caminhos que deixei de fazer
nada sei, nada mesmo.
Contudo ainda guardo na memória
todos os suspiros daquele mar prateado nas calmarias
de tantas manhãs...
E ainda reconheço a fome das algas
que se suicidavam na orla
á espera de um mar que nunca vinha do outro lado
Surdo na pele, eu ainda guardo
o som, a frieza da areia
os passos nos quais eu ia e voltava
sem qualquer interferência
Guardei o perfume da maresia
e teu beijo
antes do meio dia.
Os mares e marés.
Márcia Poesia de Sá.
Um poeta
é feito de uma infinidade de olhos numa só retina
de tímpanos apurados para os silêncios
e de uma pele que enxerga mais que a visão...
ou quase isso.
E desta inexatidão
ele exprime as reticências.
acho...
apenas.
Márcia Poesia de Sá.


Encontro NOP - 2015
Pelotas - R.S.

Poetas : Wasil Sacharuk
              Andréa Iunes
              Rogério Germani
             Anorkinda Neide
             Márcia Poesia de Sá.   

Vento ingrime.
Sei que emigrei de mim
e há anos o fiz
perdi as rotas, endereços
razões e cidades...
Emigrei de tudo que era e fui
hoje, rarefeito é o ar daquela estância
e sem constância ou ternura
olho as páginas que descoloriram-se
A estrada que sigo hoje
não é adaptada a retornos
é uma subida ingrime
extremamente perigosa
onde nem penso em parar
Ontem eu vi um pedregulho
que se desprendeu do sonho
e rolou ladeira a baixo
estilhaçando o vento
que seguia até teus olhos
Ontem vi os farelos
que te cobriram
empoeirando as imagens
como um filme antigo...
sem título ou data.
Levantei e segui
afinal, meus horizontes
ainda dormem no amanhã.
Márcia Poesia de Sá.
Curvas insolentes
Meus passos já cansados perpetuam-se de verde,
sigo...sigo infinitamente.
Avisto a curva que se abre aos poucos,
traço suntuoso de paralelas nuas.
Há nas estradas deste tempo tantas curvas.
Paro, penso e apenas sigo,
minto da reta a verdade da curva
e o vento me acompanha as cambalhotas.
Folhas laranjas vão pintando a paisagem,
e os assovios dos bambus fazem musica para mim.
Após o sol e duas luas,
chego finalmente ao ponto que penso ser o final,
passo pela porteira...
Arranco uma florzinha,
esfrego os olhos e o que avisto?
A maior de todas as curvas,
o retorno definitivo ao âmago de mim,
cheguei nas transparências das cascatas
e entre rochas e peixes vermelhos
o som de água me acalma.
Curva definitiva,
após o ponto que eu mesmo risco.
Que seja, pois é o fim do abismo,
e a chance universal da reta infinda.
D’alma poética tantas linhas...
Choram em silêncio eles e o ultimo traço.
Após a porteira eu passo...
apago a curva e apenas sigo.
Márcia Poesia de Sá . - em algum ano que já esqueci.

O silencioso som das casas.
Os edifícios namoram entre si e ruas que se estupram nas esquinas com sinais de três cores, e em seus olhares que sempre buscam horizontes do mar cada vez mais distante, raro e inquietante como as distâncias dos lírios, raramente o encontram, o mar sabe ser exclusivo ! Nua e líquida criatura que só se entrega a olhares navegantes...
...e muitas vezes preocupados com seus barulhos internos, eles, os prédios, cegam suas janelas...as deixam nubladas por incertas visões, pobres edifícios. Tão cegos e cheios de olhos oblíquos.
Por isso, ainda prefiro as raízes das casas quietas, que apenas tem poucas janelas para abrir...e de dentro delas sempre exala um cheirinho de um único lar.
(Algo de panela á fervilhar e portas que se reconhecem...)
E até mesmo quando se escancaram as portas, só namoram com seus próprios jardins. É, as casas, definitivamente, são mais fiéis.
Márcia Poesia de Sá..
Queria
eu queria poder romper os fios
que permeiam a fibra do papel
que guarda o desenho do mundo
eu queria poder num piscar
adormecer as distâncias
que amputam os abraços
eu queria saber pintar o toque
que perpetua as células das saudades
eu queria compreender os cheiros
que se mantem intactos
na pele das flores
ah...eu só queria..
juro que queria
saber voar.
E abraçar o verso
antes dele ser escrito.
Márcia Poesia de Sá - 7.11.15