domingo, 10 de outubro de 2010


"E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos nem a boca Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio." (Metade - Osvaldo Montenegro ) Me deram este mote, e dele nasceu este poema... grata Célia, adorei fazer.


Meu silêncio

Há na min’alma ecos de risos
Triscos de sonhos imprecisos

Contudo, há nuvens de puro som
Bom saber-me um improviso

Força do medo, releio
Reescrevo a coragem que arde
Alarde em gritos e textos
Frações de mim, escarlate

Meu som já te busca em silêncio
E brada quando a noite cai...

Sou só um pedaço de sonho
Um tanto que componho
Outro tanto que se esvai

Abraço então meu silêncio
Composto de dor e solidão
E o planto na colina...

Para que brote
Imensidão.

Márcia Poesia de Sá

sábado, 9 de outubro de 2010


Uivos



E que uivem os lobos dos tempos

E que chamam a matilha ao luar

Já não temo o peso dos anos

E jamais baixarei meu olhar

Tenho em retas as notas da vida

Horizonte de tanta placidez

Meu olhar não revolta-se nem teme

Ele apenas observa a pequenez

É tranqüilo e certo de tudo

De que tudo um dia passará

Meu olhar já não teme o futuro

E meu peito já aceita te amar

Degluti minha paz nesta vida

E ela aflita, deixou-se ficar

Mas com os uivos do vento, no tempo

Aprendo apenas a respirar...

Sei que arfando não leio os momentos

Sei que as lágrimas me tapam a visão...

Sei que o tempo é mestre de tudo...

Sei que a calma...

Pintou minha amplidão.

...e se há uivos de lobos ferozes...

Pois que uivem sua solidão.


Márcia Poesia de Sá

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


Se há amor

Amando-te... doando-me...

Mesmo que...doendo-me

Para amar é preciso

Abrir as porteiras

Deixar fluir as corredeiras

Apagar as dores.

Para amar é necessário

Ouvir cada pássaro

Reconhecer seus ninhos

Cantar junto

Para amar tem de ter

Em mim, um tanto de você

E deixar derreter...

O amor, não tem medo

Ele supera os aclives

Sobrepuja os declives

E voa como ninguém

Ele doa e é doado

Não tem preço nem cobrança

O amor é uma dança

Que se dança sem sentir...

Nele toca a melodia

De flautas de anjos encantados

Ele pula dos telhados

E sai voando por ai...

Márcia Poesia de Sá

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Metade

Oswaldo Montenegro

Composição: Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

É COMO UM LIVRO REPLETO DE FIGURINHAS, ME IRRITA!
PORQUE NÃO ESCREVER POESIA, BOA POESIA, E DEIXAR QUE O LITOR CRIE SUA PRÓPRIA IMAGEM....NÃO GOSTO DE POEMAS FORMATADOS, ELES DEMORAM PARA ABRIR , SEGURAM MINHA IMPACIÊNCIA E CRIATIVIDADE...

POESIA FALA POR SI, NÃO PRECISA DE TRADUTORES E SE PRECISAR. NÃO É BOA.

MSÁ

Algo me devora nesta madrugada, mas não sei exatamente o que é.

Talvez este surrealismo impalpável, que me aperta a garganta em gritos surdos, a loucura é uma grata amiga que vive por aqui a declamar frases e a sanidade sempre sonolenta se deixa adormecer em qualquer cantinho da casa... Menos perto de mim.

Há potes de cores e sombras a correr no limiar das manhãs e eles cantam, algo parecido com a música do Zeca Baleiro, eu acho...sei lá, não da para escutar direito.

Meu colchão tem chamas ardentes de palavras inclusas no dicionário de Deuses que nem mais creio, aliás ultimamente não sei direito no que acredito, no que desacredito, ando sem tempo para pensar.

Amanhã vem chegando... Como aqueles romances de cidade praieira, lagoa nos olhos e jangadas preguiçosas, que se esgueiram em águas cristalinas, e lá vem ela raiando... Rindo do meu meio dia aos frangalhos. Nem sei para que vem, na realidade hoje, eu queria desligar os botões do tempo!

Sabe? Estacionar as pessoas, deixar o mundo paradinho, exatamente como está agora...

Cada um em sua caminha com seus sonhos, e quem sabe ai, mais tarde eu conseguisse criar. Odeio telefone, som de televisão, buzinas, e aquela famigerada palavrinha que muitas vezes me tira do sério...Mãe!

Que me perdoem, as que vêem como poético ser super mãe, mas isso não tem nada de poético! É uma sina, sempre preocupada com sucos, saúde, comidas, horários, tempo, tempo, tempo!

E assim, apenas nas madrugadas consigo me rever e mesmo assim de relance...num troca troca infernal de cara e roupa...uma hora a poeta, outra hora a pintora...e em tantas horas a estranha que só vejo raramente. Graças ao universo! ela me mataria de câimbra mental se viesse sempre.

Tens um relógio ai? Tenta pará-lo, por favor... Quero o dia parado pelo menos hoje e só hoje...

Preciso de mim, e é verdade isso...ando em um teatro onde sou a diretora, tradutora, contra regra, atriz, coadjuvante, faxineira, caixa, tomo conta da lanchonete e em noites de domingo já até vendi pipocas lá fora...

Pense na agonia? ...

- Pipoca sr?

- sim, obrigada...

- só um minutinho, vou só terminar o ato e já volto.

É bem assim que me sinto as vezes...

E ainda dizem que é bom ser mulher...pelo amor de Deus! Só quem diz isto, é quem é homem.

Não quero aqui entrar no mérito na questão, mas vamos e convenhamos...ando com muita saudade da época de minhas avós. Tinham tanto tempo para a poesia, a boa literatura, uma excelente empregada na cozinha, e uma casa onde nada dava problema...ao menos elas nem sequer sabiam se davam. Hoje precisamos trabalhar, ensinar, crescer, ser doce, ser forte, ser séria, ser leve, ser responsável, dirigir e digerir os sapos, e ainda fazer carinha de paisagem...

Creio que esta minha feminilidade só me deu poucos e maravilhosos momentos inesquecíveis, a gestação foi um deles, inegavelmente o melhor. Mas ainda não sei se ando com problemas hormonais ou se meu cérebro está em obvio e decadente colapso. Porque não to achando a menor graça em ser mulher nos mundos e moldes atuais.

Bem, perdoem ai o desabafo...

Acabo de fazer um café... Aceitam? é muito bom para minha insônia. Vou ali até a janela, olhar a mata e escutar mais de perto um som de passarinho que não estou identificando, mas está alto e em bom tom, me avisando em ecos que lá vem a manhã...

Márcia Poesia de Sá

quarta-feira, 6 de outubro de 2010


Ilha dos cataventos

Se todas as minhas telas enfileiradas, pudessem recobrir todas as crateras, que por longos anos se formaram, nas paredes arenosas de meu coração. Talvez o nosso amor pudesse então ser repintado, colado e re colado num papel de linho... e escrito assim em tons de dourado clarinho, as letras mais sagradas desta dor.
As telas não sofreriam as intempéries, e chuvas e trovões não as tocariam...pois elas seriam feitas de brisa, de tinta de magia e de carinho.
E eu caminharia pela relva, com um pincel moldado em azevinho, no pelo ele teria asa de anjo, e pena de cupido no cabinho...
Assim ele pairaria no vento, a cada nova flor que eu fosse ver, as mãos não tocariam só você...mas tudo que de azul, fosse pintado. Um manto de estrelas no telhado, e um vôo de gaivota nas manhãs...o som de riso solto na garganta...e tanta esperança nas maçãs.
Na tela a grande tela da noite clara, seria assim pintada em tom de vinho...uma cor que de você, escorre espinho...reviravoltas de histórias sãs...na clara pele de todas as telas....gotículas sairiam delas, suadas de tanto amar-mos nas manhãs.

A vida passaria lenta, na minha ilha da fantasia...arte repintada todo dia, a quatro mãos de tinta e poesias...
Ambos seríamos livres, e em nuvens colheríamos ventos...para voar-mos em nossos cata-ventos...espalhando perfume pelo ar. Se um dia meu sonho revoar... voarei com ele ao infinito...eu, tu e este sonho bendito. Em nome da leveza deste ar...

Márcia Poesia de Sá