quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Noturno Manto

Não vês as sombras que perpetuas?
(d'uma magnitude esplendorosa!)
que queima minha alma
e a tua boca adoça!
Fazendo-nos espectros sem luz?!

Não vês que compactuas com o silêncio?
pintando numa tela tons pastéis
rascunhos de momentos tão cruéis
vagando na insensata teimosia?

O amor não merece rejeição
é tímido, é doce, é imensidão!
se ajeita pelos cantos de teus frios
e treme sem a tua compaixão!

Não grita, nem chora ou esbraveja
o amor só se entrega a esta tristeza
de amar-te mais que a vida!
e ainda assim, deixar-se fenecer...

E acabrunhado pelos cantos
estremece em soluços sem prantos
aconchegado a este gélido manto
que a noite inclemente, insiste em o cobrir.

E assim, entrega-se a nostalgia
de amar-te além da noite e todo dia...
Até já não poder aguentar mais!

Márcia Poesia de Sá - 2014
Ouvindo o vento

Daqui deste pequeno recanto donde olho as estrelas neste instante, parece-me que ouço tão mais que estes bucólicos sons que escorrem pelas folhas da mata. Um ou outro estalido de quem como eu, anda a caminhar na noite, quiçá em busca d'algum sentido para qualquer sonho. Paro para olhar aquele cintilante brilho que mais parece que uma estrela explodiu na negra e úmida floresta, que como uma sábia senhora me retorna o mesmo olhar que a dou.
Sentada aqui nesta mesa que agora é fria, só observo, eu só olho o mundo como uma obra branca do mais puro mármore, e em minha mente a placidez do branco se esgarça e se encolhe numa dança que invade cada entranha, e ao esfriar tudo por dentro, assim, lentamente, foge-me dos olhos algo que de cristal pinga.
Eu não entendo muito dessas coisas fugidias, e jamais entenderei algumas feras que bradam pela noite como máquinas furiosas a cortarem quilômetros de asfalto e pó. Em mim sempre viveram raízes e brotos, folhas e frutos que aprendi a esperar a maturação, eu não absorvo a pressa mas também não compreendo desistências vãs e não me atento aos arranhões que a vida insiste em me dar. Como garota que cai na areia, apenas levanto, tiro o excesso e sigo.
Daqui deste lugar onde á noite o laranja das paredes vira vermelho, sinto-me presa num rubi falsificado, que amanhã cedo, nas primeiras horas do sol irá dourar-se completamente, e o sol inclemente sequer pensará nos veios vermelhos que por dentro de mim ainda estarão inflamados pelo silêncio da madrugada. O sol nada entende de memórias abstratas, o sol só compreende o fruto e nada mais.
Ouço uns suspiros cansados de algumas almas exauridas, e o falar baixo de alguns cavalheiros de armadura, uma dama risca segredos em uma página de papel, depois amassa-os e joga pela janela da vida. Quem será esta imagem que me invade a mente, vejo-a tão clara e no entanto não a reconheço as feições apenas sinto que sua alma chora.
E é neste inefável silêncio onde abandono-me, neste dedilhar duma busca inútil, que vago por corredores internos, brancos e gélidos como o vento que agora sopra da mata para dentro de mim. Rodopia nas rochas e esbarra de leve em meu coração, que pulsa como se não mais pulsasse. De tão calado não bate mais, ele só contrai-se e expande-se num balé triste que me leva a pensar nesta insistência tão sem propósito.
Uma estrela acaba de despencar do manto azul marinho, e percebo que já não me restam desejos a serem pedidos. E sentindo minha alma aprisionada nesta densa rocha, tão branca como o silêncio, não identifico bem o que sinto, e me calo enquanto meus olhos apenas acompanham a frágil dança da fumaça que como eu, desaparece no ar sem deixar rastros.
A esta hora, nem a alegria dos pássaros coloridos me salvam de meus abismos, não ha qualquer ser que se alegre por aqui, está escuro demais na mata hoje! e um sentimento de vazio absoluto me toma em seus braços e beija minha boca com sua língua ardente e feroz como uma lâmina de bisturi.
Esta sensação tão familiar de vácuo, eu não sentia ha meses, conheço cada reentrância deste sentir e é como se miseravelmente eu tivesse voltado para casa. Mas hoje não é a mesma casa, é outra, ainda mais cinza que a antiga e ha mais teias de aranhas nas portas que insistentemente batem e ecoam pelas escadarias de mim, numa sinfonia tétrica de um mais que absoluto nada. O espelho trincado continua trincado e sujo pelo tempo, não vou passar por lá hoje, vou dormir aqui mesmo onde estou, temo não enxergar nele meus olhos vitrificados e temo ainda mais, nem isto ver.
A mata agora ressona, imagino com o que ela sonha. Como também imagino no que sonha o pelo negro que abraça um único facho de luz que consigo ver, e derrama-se da lua em sua pele faiscando pequenos cristais em meus olhos, mas eu os fecho pois hoje não ha mais lugar para nada que brilhe.
Talvez seja esta mesmo, a sina das florestas, viver toda a alegria e festa das manhãs, lamber a fome de seus filhos e alimentá-los regiamente, acalentar os ninhos que proliferam-se em seus braços, ver na retina da vida tanta vida...
E á tarde amornar-se como um embalar de filho no colo, beijando cada ninho repleto de pequenas famílias que crescem todo dia e abrir os braços aos raios mornos do sol que já cansado despede-se e caminha ao seu leito do outro lado do mundo, e sentir suas raízes aos poucos esfriando, sugando a seiva da terra que também começa a gelar á espera da lua, leva-la a suas folhas, soprar o ar para os seres da noite. Sempre tão famintos de tudo.
Enfim, quem sabe seja mesmo esta a minha sina, trazer a vida, a poesia e a cor para depois morrer. Como morre o sol todo dia, quem sabe eu tenha estado tempo demais perto desta mata e tenha com isto aprendido a anoitecer de uma forma tão densa, que nem eu entenda.
Então, se é mesmo este o caso, preciso urgentemente fugir para um cais! um dique, um ancoradouro qualquer donde eu não mais veja esta escuridão que esfria-me tanto por dentro. Sinto que preciso de velas e águas que me salguem por fora o que já é tão salgado por dentro.
Espero então neste momento que caminha para mim, e eu posso senti-lo, ver manhãs prateando-se de azul, e comer velas brancas com olhos de riso, como se elas fossem parte deste meu viajar infindo, pretendo mesmo escrever outro final para esta história, não sei se conseguirei ser entendida pelos que depois de mim, lerem minhas marolas na areia branca. Quem sabe o mar me seja brando.
Até porque acredito que onde quer que eu vá, levarei comigo as tantas raízes de minhas árvores que mesmo na distância de mim, ainda me falarão da seiva fria que sobe-lhes o tronco.
E da imensa saudade que sentirão de mim. Nesta triste herança de ser mais que apenas eu, mas sendo todas , numa só perdição, numa sina de letras que espocam na boca, e neste gosto de tantas vidas que me abraçam, apertam e estrangulam em madrugadas como esta, nas quais eu ouso ouvir o vento.

Márcia Poesia de Sá - 2014
Quantas vezes mais, terei de sepultar-me?!

E qual a distância de dias entre uma morte e outra? Já não sei. Meus velórios tem me sido por demais enfadonhos, sempre a mesma música, o mesmo café requentado, e aquelas conversas das quais eu sempre adivinho o final. Dia desses um amigo até trouxe um vinho, foi mais divertido daquela vez, ao menos depois da quinta taça alguém no corredor perto do garrafão de água mineral, contou uma piada e eu sorri. Como também sorri da Dona Eulália que ao tentar disfarçar seu fogo, tropeçou no tapete da entrada e saiu catando coquinhos na frente de todos aqueles sentados e disfarçados de tristeza. Sorri ainda mais das caras de reprovação, ah essas hipocrisias me divertem!
E aquele cidadão que trabalha no cemitério e carrega as garrafas de café para aqui e acolá a noite toda? coitado dele, passa todas as suas noites a observar rostos chorosos, vai ver por isso ele sempre fala sobre o tempo, hoje cedo ele dizia da chuva na noite passada que carregou os telhados da igreja da pracinha, e falou que o Padre Inácio saiu correndo lá de dentro de cueca de bolinhas azuis e brancas.
Pensei comigo, onde estava este senhor, para ver esta cena, ai que vontade de perguntar! mas acho que se eu falar com ele, ele enfarta coitado. Melhor eu só ficar escutando.
Maria Helena desta vez veio com outro vestido, eu já estava enjoado de vê-la sempre de preto com aquele decote irreal, e o coque feito com um palitinho japonês. Hoje ela veio de branco, vai ver cansou de tantas mortes minhas. E decidiu comemorar o ano novo de novo.
Meus filhos não chegaram ainda e já já serei enterrado, neste instante me arrependo de não ter pago a cremação. Maldita pirangagem que em nada me socorre nessas horas em que vejo que nada sou além deste decrépto corpo que morre e revive toda noite.
Uma piada contada por alguém sem humor. E lá vem novamente aquele cara da floricultura trazendo uns arranjos desarranjados, preferia que me jogassem livros na tumba! ao menos eu teria o que fazer esta noite..
- Atchin! ara! odeio cravos!!! que florzinha chata, feia e fedorenta! nossa senhora! joguem-me rosas cambada!
Acho sim que eu merecia rosas! plantei tantas rosas nesta vida! e agora só colho essa droga de velório insípido. Sabe? acho que queria era uma festa, todos bebendo e comendo porcarias, as mesmas que me mataram, queria era ver estralas, e ouvir música e brechar quietinho os casais que dançariam a noite toda entre mãos, beijos e risos.
Na manhã, quando a ressaca os abraçasse eu sorriria muito do canto do bem-te- vi que lhes doeria o cérebro. E ainda assim não seria hora de levantar, eu só levanto da morte depois de meio dia. Um dia ainda falo com os cara lá de cima sobre isso, já está bom de parar com esta palhaçada de me matar e me reviver. Quero que decidam-se de uma vez por todas, essa vida de sobe e desce está me desgastando muito.
Além do que, nem só de mortes vive um homem. Ando carente de amanheceres mais ensolarados, e de noites menos mortas.

Márcia Poesia de Sá - 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Andanças

Trago agarrada a minha retina, algumas imagens que criei e elas não me saem dos olhos! Basta que eu os feche e lá estão. Fragmentos de tantas coisas, num lirismo perfeito de cada linha do riso, ou na doçura inequívoca de olhos grávidos de estrelas, e aquela tênue luz de um abajur confidente e tão silencioso quanto aquele instante quando te fito a alma. Trago na mente impregnados aromas e deliciosas faíscas que espocam de lembranças tantas, em ecos e repetições da memória que chegam a aflorar em minha pele, como uma passeata de pelos que levantam-se para reverenciar tua presença, como um sonho. Trago no peito uma esmeralda lapidada pelas horas em que meus sonhos tornam-se realidade, momentos estes, em que entre ondas cortando os céus, ouço o rufar da antiga eternidade, cuja tez guarda tanta verdade, envolta numa charmosa nostalgia e gotas do nosso perfume que enfurecido, eclode no ar. Laços e lençóis, como sinfonias amigas, de um Voyeurismo de sensações e sentimentos que navegam calmos pelos instantes, transformando-os em horas, tão magicamente...
e que nas manhãs sempre retorna a mente, como um sabor doce duma saudade quente.

Márcia Poesia de Sá - 2014.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Breve

Lenta
Lerda
Letárgica

Recheio de casulo.

Balança as asas
Badala as nuvens
Colore um mundo

E morre em poucos dias.

Márcia Poesia de Sá.
Acho-me
Esvaída.
Perdi o sentido
Emparedei a luz
n'algum facho
grávido
de 
breu

Márcia Poesia de Sá.
E uma agulha 
risca no disco
destoam as notas
e pula de susto
toda a melodia.

Márcia Poesia de Sá.