terça-feira, 13 de setembro de 2016

Corrente de pérolas. 

Há no horizonte de tua boca
um rio de estrelas
eu, mero navegador
perco a bússola
e me atrevo a rir contigo...

Marcia Poesia de Sá.


Para você, meu filho...Alexandre.
seu riso faz falta.

domingo, 28 de agosto de 2016

Navegar
Ela simplesmente entrou no barco frágil, sem remos e sem velas e partiu. Assim, sem explicações, sem frases escritas em bilhetes pela casa e sem despedidas. O céu estava cinza e o dia mais parecia namorar a noite. A água que levava aquele barco estava calma, reflexos de gordas nuvens dançavam na mansa marola que soprava como se houvesse uma música triste tocando ao fundo da paisagem, mas na verdade só havia um silêncio que a ensurdecia.
Alguém regia um abismo por entre aquelas árvores ao longe. Ele, de pé, agarrava os ferros da ponte como se implorasse para que eles movessem-se e a fossem buscar, estático instante onde seu casaco preto era a unica pele que ele sentia como sua, o corpo atônito não compreendia os porquês.
Sua boca silenciava o amargor da saudade dos beijos, suas mãos trêmulas jamais esqueceriam aqueles toques, ele era um ponto preto na paisagem, e ela sumia no horizonte mais uma vez.
Aquele homem soltou os ferros, e em passos mais que lentos seguiu seu trajeto absolutamente perdido de tudo, na cabeça aquele manto prateado brilhava em flaches de tantas histórias que agora mais pareciam apenas papiros abandonados ao acaso.
Ele caminhava ao labirinto, pegou o primeiro táxi que passou e disse com uma voz abafada: tire-me daqui.
Seus olhos perdidos na distância de si e de tudo, apenas contavam postes que passavam sem luz.
E nesta manhã não choveu e nem fez sol. Era tudo da mesma cor, desbotada e embranquecida. Lá no barco que seguia, só uma lágrima caiu..
Márcia Poesia de Sá.
Vamos buscar do mundo a solidão do tempo?
e dela arrancar os frutos quase amadurecidos
desta existência espúria...
...e enquanto isto,
desejo-lhes Poesia...
penso que só ela nos salvará
desta morte infinita.
Tu nem sabes.
Tens atracados em teus olhos,
quando doces, cargueiros inteiros abarrotados
de armas que fazem fenecer meus medos, 
só não o sabes...
Tens na ternura da tuas mãos, quando mornamente tocas-me, as setas todas que apontam as minhas direções,
quando sinto-me confusa e perdida,
só não o sabes...
Tens na tua voz, quando branda, a mais bela sinfonia que sempre me embala em sonhos encantados,
só não o sabes...
Tens na calma que tua alma e voz embalam, a clareza do que busco por entre névoas ainda,
mas só não sabes...
Assim como não sabes que teu beijo
é como uma brisa mágica, que envolve-me em rodopios,
tirando-me completamente do calafrio
que é o temor do amanhã,
e fazendo-me pousar tranquila nas linhas do para sempre,
com olhos em horizontes imaginários
por onde percorrem garças brancas,
pena que não sabes...
que teu abraço, ah...este teu abraço
que unindo os nossos corações com laços,
abre os portais do aconchego e lá adormeço,
sonho com águas transparentes,
com golfinhos e sereias,
mastigo estrelas doces e tantas coisas mais,
mas tu ainda não sabes,
Como ainda não sabes das tantas coisas que me provocas,
quando simplesmente te abandonas
observando este pôr do sol
que ainda não sei.
Márcia Poesia de Sá.
Interessante nossas memórias olfativas. Há pouco eu estava na cozinha pensando no que faria para mim para o café, e decidi fazer uma papa de aveia, na verdade brinco que minha papa de aveia na verdade é papa de canela com aveia, amo canela e sempre exagero...
enfim, preparei e ao pulverizar mais canela por cima, aquele perfume me adentrou as narinas, o cérebro a a alma, algo na canela tem de fato este poder em mim. Voltei anos e anos, possivelmente eu tinha dez anos, não sei ao certo, mas numa fração de segundos cavalgava pela estrada da granja a caminho da casa de umas amiguinhas que moravam bem distante daqui, senti o cheiro da mata que em alguns pontos quase fecha a estrada, o vento nos cabelos e o pelo do animal roçando minhas pernas, a crina muito marrom a voar, vi também, enfim, cheguei, abri a porteira e entrei. Sim, neste tempo de minha infância não nos preocupávamos com cadeados...
Encontrei-as já descendo para o rio que corria atrás da casa e tinha a transparência dos bons pensamentos, senti todos os cheiros e sons daquele lugar que eu gostava tanto de estar, a água muito fria, o cheiro de bolo de milho, e os gritos do papagaio, ouvi também... enfim, foi uma boa viagem ao passado. Voltei para finalmente tomar café e meus cabelos ainda estão molhados do mergulho que dei. Saudades com cheirinho de canela...
Márcia Poesia de Sá.

segunda-feira, 18 de julho de 2016



Teus olhos de festa


Que irradiam luz por onde passam
e ternamente plantam mudas de alegria
regando-as todos os dias.

Teus olhos de festa
Que adoçam as ruas e as curvas
jamais estacionam na tristeza
antes disso, revoam num sorriso

Teus olhos de festa
Que na distância, abraçam
acolhem, agregam...
e adoçam.

Teus olhos de festa
Que creio, que até quando dormem
acendem pequenos fachos de luz
nas praias desertas

E brincam de roda
com as estrelas do céu

Teus olhos de festa
que o universo os abençoem sempre...


Márcia Poesia de Sá.

Para minha querida amiga Lilian Kirzner !
grata por seres assim...

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ur(gente)
Eu preciso da lambida das horas
na nuca do tempo,
para voltar a acreditar em relógios.
Quando teu silêncio me morde
eu afio os dentes em tuas mãos
sujas de tintas e ausentes.
Márcia Poesia de Sá.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Borralhos de anjos

E eu retorno cansada, exaurida pelos ventos tantos.
Sozinha e de asas quebradas, ensaio um riso xoxo
no caminho das paralelas...
E eu retorno esbaforida, espessa, desumana .

Tão pouco de mar, um tanto de lama...
E eu retorno chorosa, desalmada, inflamada
refém de algo que me apunhala...

Tantos foram os cantos silenciados
nos boêmios pássaros de outrora.
Quantas estrelas murcharam nos jardins
d'outros olhos...

Nenhuma janela com alva flâmula
consola minha triste sombra:
não há sorrisos de anjos em flores apagadas...

E eu retorno desabitada de sonhos; feita
de lágrimas pétreas
assoprando os borralhos de minha jornada.


Márcia Poesia de Sá &  Rogério Germani

quinta-feira, 31 de março de 2016

Este nosso estar aqui beira a ilusão
assim como é ilusão o nosso ir
há laços invisíveis, inquebráveis
abraços eternos
olhares que ficam...
e rebrotam a cada lembrança.

Na verdade estamos todos de passagem

e há os sorrisos
ah, os sorrisos!
esses são os mais fortes de todos!
Eles nos farão sorrir
por toda a eternidade ! .
em momentos diversos
e de várias formas diferentes...

Acredite! haverá o tempo deles chegarem.

O senhor tempo, para mim, o mais sábio mestre
vai acalmando as dores, soprando lentamente
pra mais longe, mais longe,
como brisa em cortina de voil

e assim, de repente,
numa manhã você se pega sorrindo
com uma lembrança gostosa
e só resta a gratidão pelo tempo vivido

o perfume da gratidão
ocupa todos os espaços...

E a certeza plena
de que o que nos parece um adeus
é na verdade, um até breve...

Pois o amor, o verdadeiro amor!
jamais nos deixa e segue
ele vive e viverá dentro de nós para
um sempre além do sempre.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Rouco gemido
O grito que te rasga a voz
renuncia aos teus argumentos
evoca barbáries
lamentos
apressa as intempéries
de todos os tempos
o grito te desata o nó
faz retalhos
provoca catarses
estragos
no abismo dos impasses
risca um atalho
Talho rouco na pele do eclipse
Faz sangrar os céus
Em magentas azulados
Gotas de medo e espasmos
Nos céus de todos os ritos !
Varamos as madrugadas desnudas
Silenciosos ecos flamejantes
Por entre fogueiras errantes
Estrelas dançantes riscadas no chão
E Enfim,
O berro ecoa lancinante
Fazendo malabarismos de instantes
E morre gelado na glote
Outra vez.
Wasil Sacharuk e Marcia Poesia de Sá.
Nua e mais nada
quero tua palavra nua,
sem pele, sem remendos, sem acertos
quero tua palavra rabiscada
exagerada
sem lamentos
quero tua palavra direta
enxertada
enfiada
afiada
aprofundando minha alma de teu perto
quero decorar teu dialeto
ouvir tua boca calada
mascando palavras repletas
sem ornamentos
sem emboscadas
tua tônica sem acento
teu verbo sem movimento
em locuções encantadas
quero a palavra que completa
e mais nada.
Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
Poeminha de um tabefe translúcido.
Fui um energúmeno !
um anencéfalo
um pterodátilo tetraplégico
uma coisa qualquer onde não fui eu!
Mas eu sabia, eu sempre soube, de fato
que lá naquele terraço branco
onde eu envelheceria...
onde as cadeiras balançariam minhas memórias
que a poesia teria, um certo apego por mim
E que em sendo assim,
haveria algo de contemplativo no mar das verdades
um calor brando no peito
uma mão enrugada, que mesmo tateando o nada
tatearia um riso meu...
Fui irrisório
transitório
simplório
e vazio fio
d'onde desencapava
os nadas sombrios !
mas...
Eu sabia, ah como sabia...
que as manhãs de domingo não seriam assim tão enfadonhas
que haveria um riso torto percorrendo os corredores
e quem sabe um cheiro de perfume suave
no travesseiro ao lado
da cama em sonho
Eu sabia
que apesar da faca sempre cortar as sobras
haveria resquícios de sonhos ainda não sonhados até aquele dia
um milagre benfazejo, que iluminasse as noites sem lua
e um beijo...!
que de repente, tudo apagasse
como um conto que finda em suspiro
um eclipse lunar.
Como fim do livro
e o começo de um enlace
Fui um idiota descabido
um errante em tantos pontos
enclausurei tantos anos
compondo o inimaginável eu .
Mas eu sabia, ah....eu sabia sim !
que de todos os contos que contei
nenhum teria o final
que neste final, eu dei.
Márcia Poesia de Sá. 2015.
Os abacates não amadurecem
eles se suicidam quando não são colhidos
e assim também são os sapotis...
Mas não os limões !
esses se deixam amarelar
sinalizam em alto som: colha-me ou...
enfim, há frutas que falam
enquanto outras
morrem no silêncio da semente.
Márcia Poesia de Sá.
QUANDO A VIDA ME DA UM SOCO
eu só sei sorrir
eu só.sei
eu sei
ser só.
eu só?!
eu?
- sorrir!?
será?
sorrir
só rir ... (?)
ou...
só ir
e fim.
enfim,
só.
sorrindo em degraus
como um dominó.
Márcia Poesia De Sá.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Ponto imaginário
Aqui d'onde observo este oceano azul marinho
percebo que apesar da aparente calmaria
que faz com que a lâmina d'agua até pareça um espelho
Existem redemoinhos, onde alvoroçadas curvas se mesclam
e posteriormente aprofundam-se num cone imaginário
até o umbigo da terra, onde as areias dançam,
antes de sucumbirem a escuridão.
Quem sabe imagino demais ou sinto demais
nem sei e nem quero saber, mas entendo
que apesar da solidão intrínseca dos poetas
de vez em quando, alguns deles conseguem tocar
a essência primal do encontro, e superam em muito
a expectativa tosca da mera normalidade.
Transmutam-se, transcendem, transportam-se
apenas para tocar, e assim, como um perfume bom...
evaporam na escuridão da noite, neste mar azul marinho
numa nota da canção, na frase do livro, no tempo dos relógios
ou até mesmo, neste ponto imaginário no qual você acabou de se perder.
Márcia Poesia de Sá.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Alada
A noite
Aceitou a ida
sentiu a brisa
gélida
despedida
E...
Acertou o tempo
sentiu o eco
e o fel
do silêncio.
A noite
concordou
foi cúmplice,
E ousou tocar o certo
e o errado...
A noite
Deslizou
quente
silenciosa
morna
fria
ventania
calmaria...
A noite
cuja tez mais alva
branqueou
pulsou veias
seguiu...
A noite da mais alta sinfonia
camuflou urros
surdos sussurros
A noite, anoiteceu!
Dançou
no mais branco breu
folha amassada!
Gaiola aberta
vendaval...
A noite
enluarou
ocultou
as bocas
estabeleceu
o silêncio
mastigou
estrelas
e cuspiu sangue
A noite
nomeou a dor!
estacionou
...os sonhos
Partiu flechas
e se foi...
E da noite
Só um ser sem ser
uma letra fluida
num lento
lamber de auroras
e o sinal
do tempo...
e este som de vento!
Ha noites
Em que a própria Poesia chora...
Fala manso,
e até sorri
mas ignora...
E no peito da noite
uma
farpa
vibra
ao
relento...
Alado
coração
na boca da noite...
nada não,
...só um
lamento.
Márcia Poesia de Sá.
Algumas tentativas jamais findam
Como não finda a linha que o oito circula
(e quando deitado está o oito
pior ainda)
Suspiros de poeta
Esta busca incessante, esse eterno escancarar
enfurna-se, raiar e se pôr...
Esta bipolaridade
e energias tantas a faiscar neurônios
Este silêncio absurdo!
Esta dor sem ser dor
e o sono que não dorme
e o arpão
correndo o mar vazio de peixes
E a certeira inexatidão
e os sonhos marolando...
e a fome .
E a fome da palavra
da lavra do dia,
do verde capim e da margarida.
E esta calmaria branda
eclodindo em cada vulcão incauto
E este maldito salto agulha!
E aquele amarelo âmbar a se exibir
Um pincel no chão, outro no céu
e a sede...
e a rede..
e a morte tácita
E o gole exaurido...
e o poeta maldito,
regurgito
E a estranheza estrangulando o corredor
e esta dor...
aquele sonho
Até quando vivem as borboletas?
e as muletas?
e as mutretas?
E a ira que se amofina...
e o câncer que corrói
a âncora que não voa
o albatroz exilado!
Alma no vão de todos os recomeços
e os azedos gostos
o limão...
o cão,
e essa solidão correspondida
Até onde caminha esta vida?
e a raiva manca?
o grito mudo
a surdez de tudo
E este cansaço infernal!
Márcia Poesia de Sá - 06.12.2012

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

- vontade de chorar?
- sim, sinto.
- e porque não chora?
- nem sempre posso ou devo...
- mas chorar alivia a alma, faça-o...
- sim, tens razão, mas é que as vezes
as flores que precisaram se transformar em pedras
desaprendem a chorar...

Márcia Poesia De Sá.



Enquanto o mundo todo parece estar deglutindo dourado, e o céu brilha como se o próprio sol fosse. Observo teus pinheiros de pontas e picos como lanças a tentar perfurar as nuvens que fogem, sou levada a suas casas de pedra, tantas historias elas sussurram entre si, logo ali um tronco desmorona e suas raízes expostas, rezam, clamam, pedem mas ninguém alem de mim pode escutar seu lamento, as folhas revoam atordoadas pelo vento que perdido em seus rodopios tenta ajudar. Inutilmente ...
Enquanto o mundo todo vira aquarela, eu vejo as fibras sedentas dos papeis insólitos. Eu ouço o soluço das manhãs, e sinto o frio das noites, nas pontes, pássaros se jogam no vento, no mar há um certo tom de saudade, e no tempo, um tempo que já passou. Sonhos empacotados, cartas rasuradas, e um imenso amontoado de coisas, apenas coisas que não valem mais nada. Sorrateiramente a menina bate a porta e desaparece na nevoa para nunca mais voltar. Sem adeus, sem bilhete, sem despedidas e sem choro. Simplesmente vai embora e fim. E enquanto o dourado anoitece, um silêncio quieto fala mais alto que o breu.

Márcia Poesia de Sá. 



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Só.
Só esta liberdade
atada aos pés descalços
que sobe e desce as ladeiras
da quente Olinda,
Avista trôpega ainda
a paisagem
que ao longe
se refaz de um azul
molhado
E a chuva que caiu
logo cedo nos telhados
evapora
E implora
como imploram
para viver, esses
meninos.
Só a liberdade
vê este menino
o menino que chupa
ávidamente
um picolé verde
Do outro lado da rua
estica-se faminto
o olhar de outro menino
este suga o vento
é arrasta
pelas
ladeiras da quente
Olinda...
Um carrinho
amarrado de cordão
e lata
Lata de sardinha
seca como
o verde
da esperança
que descansa
esquecida
Na liberdade
frágil
dessas ladeiras de
Olinda...
E uma menina
atravessa a praça
saia de flores
pernas de horrores
ri de pirraça
Nas escadarias da igreja
sobem os cegos
tocam os sinos
- morreu um dos meninos !
Ninguém viu
estavam rezando
E o picolé verde
derrete-se
no chão...
sem sorte
sem sonho
sem nada
nas pedras quentes
da escada
Da liberdade franzina.
Márcia Poesia de Sá.