sexta-feira, 10 de dezembro de 2010


Eu queria morrer por meia hora

Penso no porque das coisas vivas, no porque das cicatrizes doloridas, no porque do bem e do mal. Penso num ET cetara e tal de coisas que se avolumam.

Vejo as ruas que mesmo estáticas aparentemente, elas andam, cantam fados e contam histórias.

Certa vez lembro que sentei num banco perto do rio que corta minha cidade ao meio, e quase de frente a uma ponte antiga de ferro, comecei um diálogo inesquecível com ela...

Ela falava manso, sabe? Aquela voz gostosa que só os sábios têm? Leve, morna e densa... Ela falava da profundidade das coisas e das peles por cima das verdades... Falou-me que sentia uma saudade tão grande...

Dos anos idos, das carruagens, que a ela, pareciam brincos a enfeitá-la... Ela dizia:

Poetisa, as carruagens me faziam carinho, passavam lindas sobre mim, não tinham pressa de me abandonar, e as pessoas que eram ninadas dentro delas pelo som do caminhar, me viam...

Olhavam meus arabescos, observavam minhas paisagens e suspiravam enquanto eu sorria... Lembro até de certo poeta, silencioso que sempre vinha me ver. Ele sentava ali pertinho do rio e escrevia, escrevia...

Eu ficava tão curiosa a imaginar o que ele riscava com aquela pena linda... E queria mesmo perguntá-lo, porque ele me olhava tanto...

Certo dia ele sumiu... Mas lembro-me que antes de ir, passou a mão delicadamente em meus ferros, e falou baixinho quase num sussurro: você é linda...

Sinto saudade dos sons suaves, ah! Eu odeio buzinas! Hoje me sinto tão só poetisa... Mesmo que invadida diariamente Por carros, pessoas, animais, são apenas pessoas, não são poesia, como foram um dia...

Depois daquela conversa com a ponte, eu segui para dentro do Recife antigo... E sentei no marco zero para sentir aquela sabia brisa de tudo... Ela era tão feliz e cantava canções, assoviava a rodopiava perto de mim, perguntei a ela, de onde tu vens?

E ela respondeu: quem disse que eu venho? E sorriu...

Tornei a perguntar: para onde tu vais?

E ela já com um sorriso ainda maior nos lábios me disse: eu ia...

Mas já que a poetisa veio me ver, vou ficar por aqui um tempo assanhando teus cachinhos, gostei deles...

Perguntei então, se há muito ela estava por ali...

Ela ficou mais mansa, e mesmo com os dedinhos de vento em meus caracóis se acalmou e começou a me contar de tudo... Dos mascates, das mulheres e navios, das luas cheias e seus segredos, dos beijos apaixonados que ela sempre via naquele lugar e que até hoje a fazem dançar ainda mais forte...

Da mudança de som, quando antes trotar de cavalos e hoje buzinas estridentes...

Falou da arte que sempre passa lá, toma um sorvete, come uma pipoca e brinca com o bobo da corte que fantasiado de festa ilumina o lugar.

Levantei, me despedi da brisa... E cai no rio.

Afundei longos anos... Naveguei com sereias... Beijei golfinhos... Acenei para a barca que cortava o rio, lenta...

E voltei a mim...

Eu queria morrer só por meia hora, para falar com a morte... Mas acho que morri por uma vida inteira, devo ter errado o bonde... E ai, nasci na época trocada... Com a roupa apertada, um relógio de pulso, uma chave de carro na mão... Que jamais será capaz de me levar de volta a minha real vida.

Neste instante, eu escuto as ruas cantarem tristes fados...

Lindos fados...

Ai! que saudade de mim...


Márcia Poesia de Sá – 10.12.2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Folhas, mil folhas de mim...



Já percorri tantas bibliotecas em mim

Que chego a ver corredores em minha alma

Há portas e portas, prateleiras e prateleiras sem fim

Alguns livros sem poeiras, aqueles que mais folheio...


A coleção do vazio... Está no birô central

O livro saudade,

caiu ainda pouco de uma antiga poltrona...

E uma fraca luz de um abajur ainda o iluminava

Já o devolvi a estante, após tirar-lhe o pó


Umas anotações de ontem revoam as prateleiras...

E uma folha em branco me olha com afeto...


Sou a pena inquieta do arquiteto

A construir castelos de palavras...


Meus livros são da alma, o mais profundo,

O sótão de meu mundo já descrito

E as folhas hoje soltas de meu grito

Ecoam nas paredes sem cessar.


Bate então a porta! Um vento frio

Ocupa os corredores de minha dor

Desapareço em meio a alguns livros

Sou só a alma nua já sem cor


Márcia Poesia de Sá



Grata Flor pelo carinho ao meu texto.

There is no place


There is no place to hide

A loving mirror

There is no place to live

Without a soul

There is no reason

To cry, with all that sorrow

There is no way...

For me wilhout your mind...

Your voice is all

I’ve ever wanted

It touches me, so deep inside!

Your hands are always in my mind

My Love for you was writen in the stars

And now the tears are shinig bright

Today, they fall from the high Sky

Into my eye that cry...

Just for you.

There is no place

To be withought being

There is no place to die

And lie at all

My life is Just an old and sad history

When Love, becomes “forever” more

And somehow...

After so many years...

The heart begins to hurt, again.

Without a way

To find you, close to me.

I just get lost

inside of me.


Márcia Poesia de Sá

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


Adeus minha querida...


Tenho algo a dizer e este algo me embola a garganta, me aperta até quase sufocar. Tenho lírios brancos que balançam minha saudade tão impalpável, tão distante e ao mesmo tempo tão ternamente presente. Sinto falta de meu silencio em meio aos teus risos, e de toda uma gama de cores que já não mais preciso. Sou anormal, etérea, vaga como o ar de um suspiro...

Longa, rouca, morna como água de mar, profundeza que me afoga, e esta dor lancinante que já nem percebo onde dói. Talvez eu seja mesmo apaixonada pela tristeza. E estas incertezas fazem de mim naufraga, neste mar azul que me inunda sempre...

Sou talvez uma ilha transparente, inerte, dolente a navegar sem eixos pelo mar bravio...
Algumas vezes sinto os vulcões... E em outras noites sinto frio. Minha alma não tem norte, meu coração secou em antigas terras... Perfurado por punhais, e longos fios de aço que o amarraram as folhas de ébano... Jamais foi consumido! Apenas esquecido em alguma colina gélida...

Hoje, ele só lembra-se do eco do vento... E chora sem parar, embora suas lágrimas pareçam sorrisos as vezes...

Teria mesmo que subir novamente aquela colina, olhar nos olhos do guerreiro, e quem sabe ai, eu conseguisse compreender finalmente, o que eu o havia feito...e porque...minha alma jamais sossega em paz.

Assim, caminho por pedras internas e externas, tentando desesperadamente esquecer-me.


Márcia Poesia de Sá

sábado, 4 de dezembro de 2010


Estava escrito

Nas brumas deste denso e escuro mar
Que em outro tempo, longínquo tempo
Uma bruxa iria loucamente, se apaixonar

E o feitiço, em lua cheia foi decretado, aceso
Na fogueira das verdades do olhar
Uma fogueira, com o nome deles dois...

O bruxo mago, que seria raptado
Pela donzela, dona de seu coração.

Não se sabia embora já estivesse escrito
Que esta donzela, teria peito de pedra
E que nos olhos uma rocha de jade
Banhada em mel de abelhas...

Perderia o foco, ao avistar o seu bruxo
O coração de pedra começa então a ceder
Sente-se derreter... Morrer a cada segundo!


Ela já não mais o buscava
havia feito um pacto com a lua...
Daria a noite seus sonhos...
Em troca dos ventos e seus murmúrios.

Mas assim se passaram eras...
Séculos e séculos sem fim...
Até que um dia, a dívida precisa ser paga
Estava escrita no fogo
Com tinta carmim

Os bruxos de antigamente
Encontram-se em nossos dias
E as chamas da antiga fogueira
Levantam-se em alegria

Eles pensam sem pensar
Amam sem compreender
E se entregam ávidos ao luar.

Um amor escrito na pedra da eternidade
Com feitiços, labaredas, e juras

Em pleno século vinte...
Reescrevem com punhal na areia...
Um “Eu te amo!” de pura candura.

E o resto desta história...será contada depois
Pelos filhos dos bruxos... Que de lá do universo aguardam e comemoram
Finalmente o encontro do fascínio, com a loucura!

Márcia Poesia de Sá

Muito além de mim

Ao sentir-me navegante, algo de pirataria... Lenços vermelhos flamejam colorindo cada dia sou poeta doutras eras, pintora em essência de mirra, ando mares e ilhas, a jogar pétalas minhas. Muito além deste mar, escuto gaivotas a cantar, e sinto as brisas que mudam do calor carmim até o branco congelar...

Rasuro as rotas já rotas... Reescrevo a direção... Sinto que muito além de mim, ainda bate um coração. Fraco, tênue... Sensível... Fazendo borbulhas na profunda maresia desta minha razão.

Muito alem dos horizontes, os meus sonhos perdem cor... Sou desenhista de paisagens frias, japonesa solidão... Gelo que derrete em icebergs, mares em rebentação... Muito além desta dolce vita...ha sons de um triste bandolim...que comove os navegantes...enquanto min’a alma...se despede de mim.

Márcia Poesia de Sá