segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


Adeus minha querida...


Tenho algo a dizer e este algo me embola a garganta, me aperta até quase sufocar. Tenho lírios brancos que balançam minha saudade tão impalpável, tão distante e ao mesmo tempo tão ternamente presente. Sinto falta de meu silencio em meio aos teus risos, e de toda uma gama de cores que já não mais preciso. Sou anormal, etérea, vaga como o ar de um suspiro...

Longa, rouca, morna como água de mar, profundeza que me afoga, e esta dor lancinante que já nem percebo onde dói. Talvez eu seja mesmo apaixonada pela tristeza. E estas incertezas fazem de mim naufraga, neste mar azul que me inunda sempre...

Sou talvez uma ilha transparente, inerte, dolente a navegar sem eixos pelo mar bravio...
Algumas vezes sinto os vulcões... E em outras noites sinto frio. Minha alma não tem norte, meu coração secou em antigas terras... Perfurado por punhais, e longos fios de aço que o amarraram as folhas de ébano... Jamais foi consumido! Apenas esquecido em alguma colina gélida...

Hoje, ele só lembra-se do eco do vento... E chora sem parar, embora suas lágrimas pareçam sorrisos as vezes...

Teria mesmo que subir novamente aquela colina, olhar nos olhos do guerreiro, e quem sabe ai, eu conseguisse compreender finalmente, o que eu o havia feito...e porque...minha alma jamais sossega em paz.

Assim, caminho por pedras internas e externas, tentando desesperadamente esquecer-me.


Márcia Poesia de Sá

sábado, 4 de dezembro de 2010


Estava escrito

Nas brumas deste denso e escuro mar
Que em outro tempo, longínquo tempo
Uma bruxa iria loucamente, se apaixonar

E o feitiço, em lua cheia foi decretado, aceso
Na fogueira das verdades do olhar
Uma fogueira, com o nome deles dois...

O bruxo mago, que seria raptado
Pela donzela, dona de seu coração.

Não se sabia embora já estivesse escrito
Que esta donzela, teria peito de pedra
E que nos olhos uma rocha de jade
Banhada em mel de abelhas...

Perderia o foco, ao avistar o seu bruxo
O coração de pedra começa então a ceder
Sente-se derreter... Morrer a cada segundo!


Ela já não mais o buscava
havia feito um pacto com a lua...
Daria a noite seus sonhos...
Em troca dos ventos e seus murmúrios.

Mas assim se passaram eras...
Séculos e séculos sem fim...
Até que um dia, a dívida precisa ser paga
Estava escrita no fogo
Com tinta carmim

Os bruxos de antigamente
Encontram-se em nossos dias
E as chamas da antiga fogueira
Levantam-se em alegria

Eles pensam sem pensar
Amam sem compreender
E se entregam ávidos ao luar.

Um amor escrito na pedra da eternidade
Com feitiços, labaredas, e juras

Em pleno século vinte...
Reescrevem com punhal na areia...
Um “Eu te amo!” de pura candura.

E o resto desta história...será contada depois
Pelos filhos dos bruxos... Que de lá do universo aguardam e comemoram
Finalmente o encontro do fascínio, com a loucura!

Márcia Poesia de Sá

Muito além de mim

Ao sentir-me navegante, algo de pirataria... Lenços vermelhos flamejam colorindo cada dia sou poeta doutras eras, pintora em essência de mirra, ando mares e ilhas, a jogar pétalas minhas. Muito além deste mar, escuto gaivotas a cantar, e sinto as brisas que mudam do calor carmim até o branco congelar...

Rasuro as rotas já rotas... Reescrevo a direção... Sinto que muito além de mim, ainda bate um coração. Fraco, tênue... Sensível... Fazendo borbulhas na profunda maresia desta minha razão.

Muito alem dos horizontes, os meus sonhos perdem cor... Sou desenhista de paisagens frias, japonesa solidão... Gelo que derrete em icebergs, mares em rebentação... Muito além desta dolce vita...ha sons de um triste bandolim...que comove os navegantes...enquanto min’a alma...se despede de mim.

Márcia Poesia de Sá

terça-feira, 30 de novembro de 2010


Meus cárceres

Venho de tantas eras idas, montanhas inundadas de mar e resquícios de outras civilizações. E entre um gole e outro de insônia, entre sonhos e pesadelos cato papeis em rolos de papiros que contavam histórias. Reconheço-me na imagem daquela antiga espada e vejo meus pés iluminados por fogueiras. Sujos de carvão e muita poeira de antigas fugas, fugia de algumas coisas das quais eu jamais engoli e mesmo caída entre matos que recobriam os desertos, ainda escutava o trotar dos negros animais de crinas longas...
Vestidos arrastam-se pelos chãos de pedra e areia, homens bárbaros riam seus risos, e havia um forte cheiro de carne assando por entre os veios nus das terras, animais amarrados e soltos e um céu repleto de águias amigas.
Já ouvi certa vez, ao beijar a boca da insônia, numa linda noite de lua cheia, um som estranho de um instrumento de cordas, apenas vi as mãos que o tocavam, mãos morenas de alguém que o dedilhava com muita delicadeza e o som chorava uma saudade incerta. E vi próximo a ele ou nele, não tenho certeza, algo azul, parecia um tecido a voar.
Perfumes exóticos tomavam-me os pulmões eu era daquele lugar. Sentia que minha alma ali, era pura essência. E sentada na areia meu peito pulsava gritos febris e silêncios abissais.
Eu esperava alguém, e este alguém não tinha sexo nem face, cara nem rito, não corria em suas veias o sangue daquele clã e a ignorância gigantesca dos ditos mestres o queriam morto.
Minhas angustias voavam ao som daquela musica e eu me permitia adormecer, abraçada apenas ao vento frio do deserto.
Até hoje reconheço aquelas rochas que por poucas para não dizer raras horas, me serviam de travesseiro. E em outras tantas noites eu via outras viagens. Não sei de onde vem essas lembranças, eu jamais soube, mas são reais ao ponto de me fazerem chorar.
Frio, gelo, desolação. Um mar azul que espancava as rochas, e o som de gaivotas solitárias, Escócia, talvez...não sei ao certo.
Sons ecoavam em minha mente presa aquelas paredes frias e cinzentas. Ouço alto, o tilintar de taças, risos exagerados e graves, alguns gritos, me parece que faziam amor com a vida! ou a matam de prazeres sórdidos! e eram amantes da morte, não temiam a lâmina, nem o derramar do sangue, e tinham certamente nos olhos, assim como eu, algo de eternidade!
...eu fazia parte daquilo, como se assistisse a um filme.
É, nessas noites de lua cheia, quando ouso silenciar e ouvir o vento frio que se alastra lá fora, cortando os mesmos arcos como corta os anos, usando a mesma força, certamente ouço uivos de um passado abrasador.
Dor, força, abandono e amor, nas mesmas teias e veias de minha memória longínqua Então, revestida de mais calma hoje, por saber-me mais profunda que o mar, que por sinal, ainda bate sem parar nas minhas rochas de vida, é que em alguns dias escrevo histórias e noutros apenas as assisto, sendo eu também uma das expectadoras de mim.



Márcia Poesia de Sá - 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010


Desde então

...e desde antigas eras as paisagens avermelhadas sempre fizeram arder as retinas azuis. Sangues em veias múltiplas, dúbias caras e facções, templos sem religiões, apenas estandartes de outras inúteis fantasias. Na verdade memórias apenas temporariamente esquecidas. E desses tempos idos, ainda que tão lindos, apenas ilusoriamente findos. A mente galga seu cavalgar no espaço dos titãs. E por entre este céu azul claro e sem nuvens, há sombras de corvos dos antigos ritos. Posso vê-los nitidamente. Dos cânions aparentemente silenciosos, ainda ecoam gritos. A terra abraça finalmente a sua ínfima eternidade. Os silêncios ou palavras já não fazem sentido. É a babilônia dos anjos!

Final dos tempos diriam os mais crentes, que vestem a roupa branca, mas esquecem de lavá-la. Na verdade nada finda, nada inicia nada cala e nem absolutamente nada vibra. O mundo e o verbo existir sentam-se placidamente sobre uma gigantesca reticência. E nós, pobres células em decomposição, algumas vezes nos esquecemos de nossas antigas eras. Nosso DNA é eterno e nunca muda, acreditem. Acendam novamente as fogueiras, apontem as flechas de veneno, escutem o tilintar do aço, o mundo vai explodir...Retornem ao âmago de suas almas e se reconheçam! Antes que as luzes do céu comecem a falhar. Pois a grande luz interior já começa a raiar na boca do teu ultimo dia.

Sorriam quando finalmente puderem se reconhecer nas águas de seus lagos, pois a civilização já não precisa de metades  de informações. Nossa maquina maior acaba de ser ligada. E é exatamente assim que tem de ser!

Fumaça, corredeiras, aromas e gostos! enquanto o homem amordaça sua plenitude, mastigando vazios sem fim, entre fiapos de carne crua!

...e desde antigas eras, sempre foi assim.

Márcia Poesia de Sá - 2010

Sua surdez interna

Vem Ca...
Sei que esperavas palavras minhas, pois deixes que revoem os telhados, meu silencio nada pardo regurgita exatidão. Falo das palavras caladas que agora gritam

Vem Ca...
Não me negues a ferida mais exposta,
Pois que agora a mesa já está posta
e eu derramarei o tinto vinho da verdade sobre teus talheres de prata...
Engraçado, prata enferrujada de maresia.

Vem Ca...
Para de fingir este sorriso, canta comigo este famigerado grito e deixa que ecoe...
É fácil, imita-me baixinho para treinar:
Eu te amo, ainda!
Repete: eu te amo, ainda.
Sei que soa estranho e arranhado, sei que a dor da negação é um pecado, e que seria mais fácil não ouvir.
Mas de tanto observar esta paisagem branda em tua face, embora escutando o borbulhar de lava, hoje decidi abrir as entranhas a faca e gritar-te em voz nada cálida:

Vem Ca!
Sorrio ao ver o tudo fantasiado de quase nada, a paz com plumas de desespero interno, e o gosto de amargo nos favos de mel de tuas colméias. Palhaços num tablado do eterno, e aplausos da platéia estupefata.

Vem Ca!
Rasga essas mentiras, me ajuda a jogá-las na fogueira...
E quando o crepitar se fizer sonoro
Permite-me bater a porta outra vez.
Pois já queimei a minha sensatez, quando pensei um dia que me ouvirias.

Mas tua surdez é inequívoca, latejante e visceral saída... Ainda que vestida de destino

Márcia Poesia de Sá – 24.11.2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Fria paisagem

Rastros são deixados nos caminhos, fomes cegas salivam na madrugada e um grito quase surdo se faz ecoar por entre os troncos de ciprestes esguios...Nos ninhos calam-se as aves, e a lua marota, adormece...uivam e rosnam feras na noite que se vai despedindo.
Na casinha só com uma vela acesa, respira sem ar o candelabro... E as flamas de sonhos de um passado, se esgueiram em fila para a vela. Jogados nos cantos convites de um sempre, que nem sempre existiu de fato, foram escritos por tintas de ventos, e na tempestade ficaram borrados.
Uma escadaria cinza corta a paisagem da casa, e longos fios de eras... Avisam da solidão do espaço. As aranhas dançam a canção do medo. Enquanto pelos revoam na imensidão. Um olhar trêmulo da arvore mais antiga disfarça um sorriso sombrio, de quem já viu mais do que devia.
Rastros de verdades e inverdades... Frascos caídos de perfumes vazios ainda exalam neste rarefeito ar, e pássaros mudaram-se dos ninhos. A beleza gélida é mas uma paisagem azul, que sobrevive aos dias e as noites, mesmo que com a alma ausente...ela ainda encanta os abutres cegos.
E apaixona os escritores sérios, que descrevem ainda encanto, de onde só escorre dor.
Gotas sobrepostas de melancolia, um vazio lírico sobre humano... Nada há que brilhe nesta noite. Além do reflexo da lua nos dentes, das feras esfomeadas de calor.

Márcia Poesia de Sá